Interviews, parte 5
Igor RibeiroQuinta e última parte das entrevistas realizadas com os seguintes figurões do grime: DJs Kode 9 e Plasticman e os jornalistas Chantelle Fiddy e Simon Reynolds (foto). Veja mais informações sobre cada um deles e a primeira parte da entrevista clicando
aqui. Para ler a parte dois, clique
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Tem muita gente jovem no grime, como Lady Sovereign, Plasticman e Dizzee Rascal. Exitem até festas dirigidas a menores de 18. Por que os adolescentes se aproximam tanto disso?
Kode 9 – Na verdade, eu leciono sobre cultura e história musical para garotos dessa idade na zona leste de Londres. (O grime) tanto com voz ou o mais intrumental tem uma energia crua e sintética que não havia no país por um bom tempo, especialmente em uma cena urbana dominada por hip hop e rythm’n’blues bem medianos, a maioria dos EUA. As pessoas estão até comparando esse movimento, e essa energia, ao punk.
Plasticman – Porque eles se encontram nas letras. É uma cena realmente jovem e qualquer um pode obter êxito fazendo algumas faixas de grime se tiver um computador e um Hi-Fi. Foi assim que muitos produtores começaram e é isso o que chama tantos jovens para a cena.
Chantelle Fiddy – É a música da nova geração. Diferente do que é necessário para muitos ritmos, eles têm acesso a isso, podem ser parte disso como um MC, DJ, produtor, DVD-maker... Apesar de estar crescendo por algum tempo, a cena ficou proeminente há dois anos quando muitas pessoas no grime acabavam de fazer 18 e podiam sair sem problemas.
Simon Reynolds – É a música deles, eu acho. Eles estão procurando por uma identidade. E também é o som para quem cresceu entre o jungle e congêneres – tudo que conheceram foi essa música programada, com jeito mecânico.
E a agressão, a crueza, a boca suja dela é o típico de coisa que tem apelo entre os adolescentes cheios de frustrações para se livrarem. Sempre penso nisso como sendo meio punk rock, neste aspecto.
Ao mesmo tempo, às vezes tem um apelo bem sexual, com muito freestyling sobre assuntos urbanos como drogas e violência. Como a mídia e a opinião pública têm lidado com isso?
Kode 9 – A mídia mainstream sempre vai focar nos elementos negativos do ambiente sócio-cultural do qual a música emergiu. Tanto como com o hip hop, o assunto da violência é complexo. É uma linha muito fina entre tornar os duelos de MCs hype para chamar a atenção das pessoas e ficar cutucando a violência. Mas ao mesmo tempo a música funciona como uma fuga desses tópicos ao colocá-los no centro. Infelizmente, a ênfase da mídia nesses assuntos leva o Estado a fechar as rádios piratas que são essenciais para a transmissão da música. No entanto, as rádios piratas estão num passo adiante. Parece ser um tempo crucial para a música apenas agora. Quando o UK garage era grande, levou apenas um incidente de tiros com alta repercussão envolvendo um show do So Solid no centro de Londres para tornar-se praticamente impossível organizar uma festa de garage na cidade.
Plasticman – Até agora eles realmente não se preocuparam muito. Ainda acham que o UK garage é a criança problema da cena underground. Até o grime alcançar de fato os ouvidos dos principais chefões da mídia e começarmos a ter problemas de verdade com armas e violência, isso não vai esquentar muito. Enquanto os MCs gostam de falar sobre armas e facas, só uma quantidade bem pequena deles foi indiciado ou teve problemas por causa de armas de fogo – até muitos entre eles serem pegos, isso não será destacado pela imprensa.
Chantelle Fiddy – Não tem sido levado literalmente, muito das letras é metafórico. Às vezes, as pessoas acham divertido, em outras, ficam confusas. Mas no fim das contas o que podem dizer? A gente deixa o 50 Cent ficar se vangloriando por ter sobrevivido a nove tiros e deveríamos odiar e silenciar nossa própria (cena)? Isso não é certo. Se vão fazer um exemplo disso, que seja universal. E em vez de ficar maldizendo a música pela violência, olha antes para a sociedade. Não é mais um lugar legal lá fora.
Simon Reynolds – Não parece muito sexy pra mim – mas é bem sexista, no sentido de que muitas letras dizem coisas desagradáveis sobre mulheres. Muito disso, no entanto, é fantasia. Moleques agindo como se fossem fodões. Quando na verdade eles são apenas adolescentes que queriam montes de dinheiro e garotas! E as garotas que estão na cena ficam melhores se forem ainda mais duronas!
grime no cenaeletronica.com
Grime brazuca na gringa
O grime ainda é muito recente no Brasil, mas as produções nacionais do gênero estão dando o que falar na gringa.
Aqui no Brasil quem começou movimentando a cena grime é o DJ e produtor Bruno Belluomini. Em São Paulo ele faz a primeira festa do gênero no pais. Em Curitiba ainda não há nenhuma festa de grime, mas eu mesma resolvi fazer a minha parte e montei um blog sobre grime, e para isso convidei o próprio Bruno e mais dois jornalistas para me dar um help na divulgação do gênero. Esta dando certo. O blog já foi citado em vários sites como referencia, assim como um blog criado pelo próprio Bruno.
Mas você deve estar se perguntando que diabos é grime! Vou tentar resumir e abaixo o Bruno conta um pouco mais.
A começar pela palavra `grime`, que significa algo como coberto de sujeira, sujo ou algo assim. Com certeza é muito mais que um estilo de musica, uma forma de cultura que nasceu nas ruas londrinas. Parece um espécie de rap britânico, a evolução do já conhecido UK garage. Mistura funk, muito funk, com as batidas quebradas do drum`n`bass e até um electro. Mas só ouvindo mesmo para entender melhor.
Os grandes nomes do grime são produtores e mc`s que fazem musica muito boa de forma barata. Nomes promissores do grime são Plasticman, Mc Kano, The Streets, So Solid Crew, The Bug e Mark One,. O Kode9, que inclusive já veio ao Brasil para um apresentação em São Paulo, é Dj e produtor e tem uma radio pirata em Londres, alias as radio piratas são um grande veiculo de divulgação do grime. Até algumas produções do Mathew Herbert ou algumas musicas do selo Bpicth Control, da Ellen Allien, tem um ar de grime. O Dizzee Rascal, que fez o vocal das musicas Lucky Star e Kish Kash do Bassement Jaxx, começou a fazer musica com 17 anos usando o computador e o microfone do colégio publico aonde estudava, hoje também é um dos grandes nomes do grime. Para saber mais confira sobre o que anda rolando de grime no Brasil em uma entrevista com Bruno Belluomini.
Mannu. A TRANQUERA tem dado muito o que falar por ser a primeira festa dedicada ao gênero no Brasil. Como surgiu a idéia de fazer a festa em São Paulo?
Bruno. Fui convidado para tocar na Speedz, palco de vários projetos realmente criativos e inovadores, que conseguiam se apropriar de gêneros eletrônicos já existentes para produzir algo definitivamente diferente. Em seguida, na Xtra, o desafio era levar informação musical diferenciada para pista, para um público exigente e interessado em coisas novas. A noite foi um sucesso. Daí surgiu a idéia de fazer uma festa que fosse a soma dessas experiências, com foco no Grime e Dubstep. O Jimmy se interessou pelo projeto e veio para dar uma cara mais autêntica ao som. Ele rima de improviso, transforma tudo em verso e prosa. O microfone conecta o público à pista de forma interativa. Assim é a TRANQUERA.
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A materia na integra voce confere no
cena eletronica.
Tranquera na Dubplate
Fazendo uma prévia da terceira edição da
TRANQUERA e levando novas produções para pista, Bruno Belluomini e Jimmy Luv se apresentam na Dubplate - festa de Drum'n'bass e vertentes comandada pelo Negrulho no club Sarajevo. Então fica esperto: a Dubplate rola Sábado, dia 1 de Outubro, na Rua Augusta 1385, Cerqueira César, São Paulo, Babilônia. Mais informações no 11 3253 4292. Fotos da última TRANQUERA na Dubplate
aqui.
Top 10 Chart Setembro 2005
Bruno Belluomini1.
Dogzilla & Danny Weed "Hello" OT
Grime ou Rock? Tanto faz. Guitarra, bateria e vocal com presença de palco. Dogzilla é um dos MCs mais talentosos da cena Grime britânica. Esse som parece uma banda ao vivo! Excelente!
2.
Ruff Sqwad "Together Jumping" Ruff Sqwad
Melodia bem construída. Downtempo com rimas cortantes. Ruff Sqwad é a vertente Soul do Grime. Muito bom.
3.
Moving Ninja "Shellcode" Tectonics
Sintético, metálico e pesado. Aquele tipo de som atmosférico que pega bem para abrir a noite. Legal.
4.
N Double A "Monsta Riddim" Mastermind
Bem agressivo e violento. Imagine ao vivo. Só não sobe ao pódio porque senão assunta demais a frequesia.
5.
Majestic MC "Kebab Riddim" Maj Funk
Divertido e sem complicação. Base mais quadrada e linear para temperar o clima quebrado da seleção.
6.
Fumin "War" UD
Rimas aceleradas em vocais claros. Mesmo usando samples batidos de "clicks" e "bangs", Fumin ainda é considerado uma grande promessa.
7.
Emalkay "Missile" Morphic Sounds
Efeitos e samples que lembram videogame com uma melodia interessante. O peso dessa faixa segura a pista.
8.
Slaughter Mob "Tinji" Boka
Eles já lançaram coisa mais legal. Uma pena. O selo pedala bastante para produzir som de qualidade.
9.
Emalkay "Rain" Morphic Sounds
Ruídos bem orquestrados. O conjunto é simples. Mas a solução convence e funciona.
10.
Scuba "Timba" Hotflush
Mais um título do selo que continua firme e forte como referência do estilo. Infelizmente soa mais do mesmo. Não foi dessa vez.
P.S. A maioria dos clips de audio, artes das capas e rótulos de vinil podem ser encontrados nos sites
Blackmarket e
Juno.
Salvem o capuz!
Igor Ribeiro
| À esq.: Chantelle Fiddy e Lady Sovereign mostram seus ‘hoodies’ |
Golfinhos? Focas? Ursos pandas? Florestas tropicais? Nada disso.
Lady Sovereign arregaçou suas mangas por uma causa totalmente urbana: salvem o capuz!
O fato é que o Reino Unido anda sofrendo várias manifestações contra aquele velho moletom com capuz (que também é bastante usado aqui) por ser associado a gangues, vândalos e congêneres. O problema existe há tempos, uma vez que o noticiário inglês só vê um meio de descrever boa parte dos suspeitos de roubos, depredações ou brigas: “os delinqüentes de capuz”, “os assaltantes encapuzados” etc.
A polêmica ganhou notoriedade quando diversas Anti-Social Behaviour Orders (Ordens para Comportamento Anti-Social, ou Asbos) foram expedidas proibindo o acusado de usar capuz –uma Asbo costumava implicar em serviços para a comunidade ou liberdade vigiada. Começou em maio, quando Dale Carroll, de 16 anos, foi acusado de atirar fogos de artifício sobre ciclistas e cortar cabos da iluminação pública de Manchester. O adolescente levou uma Asbo que o proibia de andar em certas partes da cidade (incluindo o bairro onde mora sua mãe) e de vestir capuz.
A partir daí, a implicância com a roupa generalizou. Leis foram para votação nas câmaras de diferentes municípios, um shopping na cidade de Kent – o Bluewater, o maior do interior inglês – proibiu o uso do capuz nas suas independências, dependências, e algumas escolas privadas seguiram o prognóstico. O movimento tem apoio do primeiro ministro, Tony Blair, e também do vice, John Prescott.
Apesar disso, acontecem reações contrárias interessantes. Representantes dos conservadores e dos sociais-liberais, dois dos maiores partidos britânicos, já manifestaram sua objeção a essa caçada. Um outro garoto que tinha recebido uma Asbo em Portsmouth, teve a proibição do capuz revogada pelo juiz, que considerou esse tipo de restrição uma “ofensa contra os direitos humanos”. A melhor delas vem do escultor Des Smith, do município de Angus. Ele conseguiu uma autorização do conselho local para erguer uma estátua de uma menina com capuz, em homenagem à juventude – apesar do fato de estar regulamentada, a obra não diminuiu a polêmica a sua volta.
Lady Sovereign não deixou por menos, afinal, capuz é quase uma instituição no meio hip hop. Ela gravou um single chamado “Hoodie” (“moletom com capuz”, em inglês) e está colhendo assinaturas por meio do site
Save the Hoodie contra a proibição. A página, por si só, já é divertida. Há uma galeria de estilos de capuz, como o “kenny”, em homenagem ao personagem do desenho South Park, e o “superman”, apelido dos corajosos que usam só o capuz, sem vestir as mangas. No link “História do Capuz”, Sov divaga sobre a pré-história da vestimenta e aborda personagens famosos, como monges franciscanos, Robbin Hood e Chapeuzinho Vermelho.
Mas a melhor parte é mesmo o single, que ela vai lançar em 21 de novembro, cujos trechos são audíveis na página. Há um remix do Brucker & Sinden, bem dark, e outro da Mizz Beats, também pesadão. O que deve bombar é o remix do Basement Jaxx, com uma psicodelia das arábias no refrão, com flautas e violões. A letra, claro, ironiza toda a polêmica contra os “hoodies”. Para a próxima quarta, dia 5/10, Sov fez uma convocação geral de figurantes para filmar o videoclipe do single.
Impressionante a disposição de Lady Sovereign em gravar uma faixa em cima de um assunto atualíssimo em meio a centenas de coisas que a rondam. Além dos
singles recentes e das
negociações com a
Def Jam, a MC estava, há poucos dias, na festa de aniversário de 20 anos da Spin, em Nova York, onde se apresentou ao lado de LCD Soundsystem e Public Enemy, e concedeu entrevista à Playboy estadunidense. A
Fader Magazine deste mês tem reportagem de capa sobre Sov entre os ianques.
Não há dúvidas: em 2006, Lady Sovereign é a bola da vez do hemisfério norte.
Terceira edição da Tranquera
A primeira festa de grime do Brasil, a Tranquera, chega a sua terceira edição de endereço novo. Agora, ela está no Sala Especial, clube descolado do centro de Sampa, próximo ao Hotel Cambridge. O DJ residente Bruno
Belluomini vai contar, além do MC Jimmy Luv, com participações de gente como Hidráulico e Negrulho. Veja o line-up
Alexandre Vaz (Breakbeat, Electro, Nu Skool Breaks)
Reverse Tunes (Breakcore, Digital Hardcore)
Bruno Belluomini & Jimmy Luv (Grime, Dubstep, Sublow)
Hidráulico & Eric Ska (Ragga, Jungle, Dancehall)
Negrulho (Dub, Ragga, Jungle)
Enrico (Wonky, Mashup, Hip Hop)
TRANQUERA: Sala Especial (r. Álvaro de Carvalho 190, Centro, SP/SP). Tel.: 6841-1678. Sábado (8/10), 23h. Próximo ao Metrô Anhangabaú e ao Terminal Bandeira
Flyer ou lista: R$10. Na porta: R$15 (mulheres de graça até às 24h c/ flyer ou nome na lista). Nomes para: projeto_tranquera@yahoo.com.br.
Mais informações em http://www.submusica.com/brunobelluomini
Dor de corno também afetou o grime
Veja nessa matéria, da BBC: http://news.bbc.co.uk/1/hi/england/london/4265526.stm.
Interviews, parte 4
Igor RibeiroQuarta parte das entrevistas com os DJs Kode 9 e Plasticman e os jornalistas Chantelle Fiddy e Simon Reynolds. Kode e Plastic respondem, dessa vez, uma pergunta a mais, relacionada a produção (veja mais informações sobre cada um deles em
Grimeviews, parte 1).
Os grime crews, como So Solid e Roll Deep, funcionam de forma parecida aos clans estadunidenses? No Brasil há posses de hip hop, que devem ser similares...Kode 9 – So Solid já não é mais importante, mas o Roll Deep está bem potente, reunindo alguns dos melhores MCs como Wiley,
Riko, Trim, Flow Dan, Scratchy etc. Os outros crews bacanas na programação da rádio pirata na qual toco, a
Rinse FM, são Ruff Squad e Newham Generals. Sim, acho que há muitas semelhanças com os clans dos EUA no conteúdo das letras, embora seja de um estilo mais londrino. O flow e o ritmo são bem distintivos de Londres. Tenho certeza que também tem similaridades com as posses, o baile funk, o favela funk ou seja lá como vocês chamam no Brasil.
Plasticman – So Solid tem estado bem quieto: dois de seus integrantes se tornaram apresentadores de TV (celebridades menores) e outros três foram parar na cadeia. Eles têm começado e parado as coisas nos últimos anos. Roll Deep acabou de gravar um álbum [lançado em junho na Inglaterra], assinados pelo selo
Relentless, da
Ministry of Sound. A idéia de famílias e posses se juntando em torno da música é certamente similar aos crews londrinos. É uma boa maneira de as pessoas se reunirem coletivamente e se promoverem em um formato de pacote. Há mais chances de ganharem destaque se estiverem todos colaborando um com o outro.
Chantelle Fiddy – Sim, é a mesma coisa. So Solid não tem trabalhado ultimamente. Roll Deep tem um álbum saindo pela Relentless Records em junho.
Simon Reynolds – Toda a cena é orientada pelos crews. So Solid ainda existe mas já não é tão importante. Roll Deep ainda é imenso e terá seu álbum lançado neste mês. Outros crews grandes são Fire Camp (de Lethal B), Aftershock, Essential, Ruff Squad, NASTY... Há muitos para listar, na verdade. Eles tendem a ser bem numerosos e coletivos, o que inclui um ou dois produtores, pelo menos um DJ e diversos MCs – muitas vezes um cantor também. Alguns crews tocam seus próprios selos. Sim, têm a mesma estrutura, uma quase-família, que você vai encontrar no hip hop e no dancehall da Jamaica, Clans, dinasties etc.
Como você costuma produzir? Samples são comuns? Plasticman – A maioria das minhas faixas é baseada em samples, apesar de eu usar alguns poucos softwares sintetizadores. Uso principalmente Fruity Loops para produzir – é um programa bastante acessível. Muitas pessoas da cena usam um set similar, principalmente pelo fato de que somos jovens e esse é o jeito mais barato de começar. São raros os jovens produtores que podem pagar por um sintetizador em hardware ou por uma mesa de mixagem – apesar de alguns deles, que vieram do garage para o grime, usarem hardware.
Kode 9 – Há algum sampling, mas eu diria que softwares sintetizadores (Fruity Loops, Reason etc.) e instrumentos pré-gravados são mais comuns nas produções. Algumas das faixas com samples mais interessantes, como por exemplo as faixas de Wiley, vem de jogos de videogame. Samples de tiros, de janelas quebrando e de diálogos de filmes também são bem comuns. Na verdade a sonoridade de muitos ritmos de grime me lembra as antigas músicas de jogos de 8 bits, parecendo pancadas, bem cru, mas sintético. Algumas poucas produções cortam instrumentais de hip hop dos EUA, mas aumentam a velocidade, como “Thuggish Ruggish”, do Skepta, de alguns anos atrás, que pega algo de uma faixa do
Bones Thugs-n-Harmony. Samples de músicas chinesas, indianas ou árabes também costumam acontecer.
Produção nacional
Natalie ValiliProjeto TranqueraO Grime e o Dubstep já têm entusiastas no Brasil. Confira os links:
Bruno Belluomini featuring Jimmy Luv "Vow Keimah! (Jimmy Luv Remix)" Unreleased
Bruno Belluomini "Retumba" Unreleased
Mais produção nacional
aqui.
Entrevista – Simon Reynolds
Daniel SolyszkoO jornalista inglês Simon Reynolds, um dos críticos que mais falam sobre grime na imprensa musical, esteve recentemente em São Paulo para participar de um debate e discotecar na festa de encerramento do Campari Rock. Eu e o Bruno Belluomini, DJ da Tranquera, fomos trocar uma idéia com o cara sobre o estilo. A seguir eu selecionei os trechos mais legais da conversa.
Sobre como surgiu o termo e o som “grime” O lance com a palavra grime é que era originalmente uma palavra usada no hip hop americano. Havia esse grupo, Onyx, que falava em “grime sound”, isso por volta de 1993 ou algo assim. E eu acho que a palavra começou a circular e as pessoas usavam para descrever essas letras sinistras, uma espécie de “vibe” dark, agressiva e sinistra. O que nós agora pensamos como sendo grime...houve esse período no qual não havia um nome, ninguém conseguia decidir como chamar. Isso durou um tempo, e havia vários candidatos, o mais sem graça era “Garage Rap”, tipo garage + rap, o que era uma descrição bem técnica, mas haviam pessoas dizendo “sublow” e “8-bar”, o que é ainda mais técnico, porque é o número de compassos no qual as pessoas rimam em cima quando o ritmo muda. Eu percebi que havia muita gente usando termos como “gatta”, e isso parecia bem evocativo para mim, que nem a palavra “grime”, com suas conotações de sujeira, e com coisas que as pessoas queriam lidar, como a sociedade é um “lixo”. Por um tempo eu chamei de “gatta garage”. Mas a palavra grime começou a prevalecer, as pessoas começaram a eventualmente concordar com o nome. Eu acho que é um bom nome, é simples, apenas uma palavra, todo mundo sabe o que significa e tem essa espécie de sentido duplo de sujeira, mas também de algo que faria você pensar em cidades industriais como Manchester, onde saía fuligem (grime) das chaminés. Uma das poucas coisas que eu não gosto é que é uma palavra que veio do hip hop e eu acho que a cena deveria criar um nome próprio para se distinguir do hip hop.
Eles usam essas palavras negativas nas rádios piratas como “gatta”, “sewer” (canos de esgoto). Eles usam expressões como “essa música fede” ou “essa música é nojenta”, querendo dizer que é bom. Com o hip hop é a mesma coisa, em hip hop eles dizem “mau” querendo dizer “bom”, doente, tipo “essa música é doente”. Todas essas palavras que são negativas se tornam positivas, e isso é uma expressão de rebelião ou um sentimento de que você está invertendo os estereótipos da sociedade de alguma maneira.
Sobre dubstep, sublow e outros sub-gêneros do grimeDubstep meio que já existia antes do grime. Houve um período de transição entre UK Garage ou 2-step e o grime. Nesse período haviam muitas músicas instrumentais pesadas, pessoas usando breaks, eles também falavam em breakstep, e dubstep é uma dessas palavras que eles usavam. Ainda era garage realmente, mas eles estavam se movendo do elemento pop, eles estavam deixando as músicas mais “nuas”, tirando os vocais e deixando só o baixo e o ritmo, então esse foi meio que um período intermediário, antes da emergência do grime. E usando aquelas linhas de baixo muito pesadas, era um elemento que já era parte do UK Garage, mas que eles intensificaram, deixando mais simples a parte da “canção”.
Jon E. Cash, ele inventou o termo sublow e meio que lançou para ver se alguém usava, mas ninguém usou. Outro termo também foi “eski”, que Wiley criou, ele costumava chamar sua música assim. Mas eu acho legal que a cena tenha aceitado “grime”, ainda existem algumas pessoas que não usam o termo, que dizem: “Ah, é apenas garage”, mas parece bobo para mim, porquê o som mudou tanto...Eu gosto de pensar em nomes, eu acho que é parte da excitação com essas coisas...
A situação da cena grime hoje na Grã-BretanhaEu continuo acompanhando e é bem interessante, e eu tenho ouvido várias faixas novas, não sei se ouvi algo como um novo estilo. Muitas pessoas tem feito o que chamam de R’n’G, que seria “rhythm and grime”, uma espécie de som mais suave e melódico, faixas mais sexy. Parcialmente porquê eles de fato gostam desse tipo de som, mas também devido à ambição, eles pensam que isso vai fazer com que mais pessoas se interessem pela música se eles usarem esses elementos. Uma das coisas que as pessoas reclamam é que não é realmente bom dançar grime, você vai nas festas e ou as pessoas ficam loucas ou elas só balançam a cabeça com a música, e não há muita dança, tem muitos caras e não há meninas suficientes. As pessoas acham que as faixas de R’n’G trazem mais garotas, uma atmosfera melhor. É engraçado porque está repetindo a mesma coisa. Porque o 2-step aconteceu quando as pessoas pegaram o garage e adicionaram R’n’B, então é como se fosse algo semelhante acontecendo. É como um ciclo, parece que fica um pouco mais pop e depois bem cru...
Sobre funk carioca e estilos semelhantes ao grimeTem algo de exótico (no funk carioca), mas também algumas das qualidades que as pessoas gostam em dancehall, do som de certas cidades no sul dos EUA, New Orleans bouce, Miami bass, crunk... É estranho porque todos esses sons de certa maneira são diferentes, mas eles também tem muitas coisas em comum, como geralmente alguma conexão com electro e aquele som de baixo específico. E se você descontar as diferenças entre os países eles tem estruturas sociais similares que produzem essas músicas, elementos de classe similares, elas preenchem as mesmas funções de algumas maneiras. É música de festa, geralmente tem algum elemento sexista, de agressão sexual, mas geralmente as mulheres são tão duronas quanto os homens, então os homens são maldosos mas as mulheres são maldosas também. E também tem essa conexão com o crime, a glamourização do crime, que reflete algo real, mas reflete uma fantasia também eu acho. E outra coisa que eu acho que todos têm em comum é que são músicas bem impuras, eles não tem respeito para valores de propriedade na música, então eles roubam qualquer coisa que funcione, pegam coisas de música pop bem cafona, só um pedaço que eles acham bom, algo de alguma trilha sonora de filme... Eu gosto desse aspecto, esse roubo musical, eu acho interessante, especialmente porquê geralmente elas estão roubando da cultura da qual elas foram excluídas, todas essas coisas vindas de Hollywood, do mainstream, dos EUA, e eles estão roubando um pouco de volta, e não estão pagando nada por isso, então é uma espécie de postura rebelde de alguma maneira.
Outra coisa que eu acho bem interessante é que é bem local, é uma coisa bem territorial onde as canções se referem a vizinhanças em particular, distritos específicos de uma cidade, mas eles também são bastante globais porquê eles estão conectados à mídia, eles estão cientes da música pop num sentido global, é daí que eles roubam coisas. É como uma combinação estranha dessas duas coisas: um lance bem local, territorial e ao mesmo tempo esse aspecto global.
Sobre as rádios piratas na Inglaterra e sua relação com a cena grimeNa Grã-Bretanha algo estranho está acontecendo com o grime, eu acho que as estações de rádio piratas não são tão importantes como costumavam ser, porque tem esse canal de TV à cabo chamado Channel U (U de Underground), e nele passa muitos vídeos de hip hop americanos, mas também passa muitos vídeos de grime, bem baratos, sujos e feitos de uma maneira pobre, mas as pessoas gostam. Elas gostam justamente por isso, porque elas vêem os MCs que eles gostam na TV, é um grande barato, porque passa 50 cent e de repente é Tincy Strider ou alguém assim, é uma grande emoção. E isso alimenta a cena porque é uma cultura tão visual, é tudo sobre personalidade, sobre esses caras que são personagens. E os discos não vendem realmente tão bem, eles vendem mais pros DJs realmente e uns poucos fãs, é nos DVDs realmente que você pode ver as pessoas. Um single de 12 polegadas de grime que tenha uma boa venda, ele vende algo como 500 cópias, mas os DVDs vendem 3 ou 4 mil, 8 mil cópias, porque você tem bem mais músicas em 2 horas, mas você também vê as pessoas. Muitos desses artistas são performers muito bons também, você consegue ver que eles colocam muitas idéias em como eles atuam no palco, como eles projetam sua energia. E além disso eles também querem ser astros do rap de verdade, então eles são inspirados por vídeos de rap. O rap nos EUA é um gênero áudio-visual, óbvio que as pessoas também escutam no rádio, no carro, mas para entender o rap agora você tem que entender que o visual e o som são muito integrados, os vídeos são como pequenos filmes, muito caros. E todos esses caras do grime eles querem ser tão grandes quanto 50 cent, esse é o sonho deles, eles põem o seu pensamento nisso, na sua imagem e em como ela é projetada. Então no caso do grime eu acho que as rádio piratas estão sofrendo um pouco por causa dessa natureza visual do grime. Mas ironicamente, apesar do fato de que é tão orientado para a performance, não há muitas raves de grime na Grã-Bretanha, porquê os promoters não querem organizar os eventos, eles acham que vai ter confusão. Então eu acho que esse é outro motivo pelo qual a TV é tão forte, porquê você vê essas pessoas de fato, não há muitas chances de você vê-las no palco.
Mas ainda há muitas estações de rádio piratas, na verdade eu acho que há mais estações de drum’n’bass do que de grime, talvez 4 ou 5 de grime, daí tem estações piratas de drum’n’bass, house, etc. Rinse FM é a maior pirata de grime. Eu acho que muita gente ainda escuta elas, mas agora tem esse outro fator, que é o Channel U, os DVDs.
Sobre os DVDs de grime e sua popularização na InglaterraEles não são caseiros, tem pequenas companhias que fazem eles, mas não são coisas extremamente bem-feitas. E alguns artistas aparecem de graça, ninguém é pago para estar neles, mas eles acham que é uma boa promoção, é tudo parte do plano deles de ser uma estrela, então eles fazem suas performances de graça, o que eu acho interessante.
E eu acho que eles estão meio que ensaiando, praticando ser popstars, fazer vídeos, é quase um ensaio para ser famoso. É como se eles tivessem se cansado de esperar pelas equipes de TV chegar, então eles fazem sua própria TV. Mas o Channel U é como um canal de TV normal, não surgiu da cena, alguém começou com ele para mostrar hip hop, daí eles perceberam que podiam mostrar bastante grime, porque muitos adolescentes assistiriam o programa.
Um single de 12 polegadas sai por 6 ou 7 libras, e um DVD por talvez 14 libras, mas você tem 2 ou 3 horas de entretenimento em comparação.